sábado, 29 de setembro de 2012

"Estas páginas foram escritas unicamente para a senhora. Vazei nelas toda a minha alma para lhe transmitir um perfume da mulher sublime que passou na minha vida como sonho fugace. (...) Tenho-a tão viva no meu coração, como se ainda a visse reclinar-se meiga para mim. (...) Onde quer que eu esteja, a sua alma me reclama e atrai; (...)" é forçoso então que tu vivas em mim. "Há também lugares e objetos onde vagam seus espíritos; não os posso ver sem que o seu amor me envolva como uma luz celeste."

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

À todos: a verdadeira Lúcia

Os prazeres dessa mulher já se encontravam na simplicidade, em nossas conversas, em sua admiração por minha pessoa. Ela agia como uma criança, na ingenuidade, na pureza, em uma nova vida longe do até então presente. Lúcia contou-me sobre seu passado, o sacrifício que fizera pela saúde de sua família. Sim, se tornar cortesã fora sua única saída. Ainda jovem ofertou sua vida e dignidade em prol da de seus familiares à beira da morte...

Distanciou-se de vez de tudo. Foi morar longe, em São Domingos. Neste lugar encontrou paz, sossego e um lar para sua irmã Ana, a única que a apoiara apesar de tudo. Ali me fizera prometer cuidar de sua irmã, amá-la como ela a tanto fez. Fui feliz com sua pura amizade. Ouvi de sua boca um "eu sempre te amei, Paulo". Porém, o destino foi cruel, fazendo-a padecer em meus braços. Essa mulher foi cortesã, foi Lúcifer, ardente e indomável. Mas à beira do abismo conservou a pureza de sua alma, sendo anjo, sendo pura, sendo Lúcia, Maria da Glória, a mulher que amei. Minha amiga, minha amada, para sempre minha Lucíola.

A compaixão de uma amiga


Comecei a me distanciar sem pensar no sofrimento que causava aquela mulher que com a minha presença já ganhava seu dia. Mesmo desprezada, Lúcia vivia em meu nome, por minha felicidade, mesmo não usufruindo os prazeres da carne, nem míseros beijos. Lúcia perdera o calor. Um corpo gélido e sereno tomou conta dessa mulher. Nem os lugares que ousava frenquentar a pouco tempo chamavam-lhe a atenção. Pompa, esplendor, e sociabilidade simplesmente desapareceram de seu mundo. Parecia que estava decidida a se desvencilhar de seu corpo defunto. Parte de si que considerava de valor nulo, depósito de suas impurezas. Sempre que podia hesitava ao meu toque, valorizando nossa conversa, um simples olhar. Já reconhecia a dor dessa mulher. Uma dor que estava impregnada e eternizada em seu corpo. Era inimaginável, mas surgia uma viva amizade fraternal e pura entre nós. Partilhávamos nossas abstrações de juventude... 

Do céu ao inferno

Nossa mínima relação mudaria completamente após uma ceia na chácara de Sá... O vexame e desonra que essa mulher vivia passou diante dos meus olhos, instigando minha revolta. Jamais me esquecerei daquela cena de repúdio. Deprimente foi vê-la despida sobre aquela mesa, atingindo um nível tão baixo como o caráter daqueles homens. Porém, algo mais forte e imprescindível fez com que Lúcia prometesse jamais repetir tal situação, admitindo sua vergonha e temor ao meu desprezo. Ela acendia uma pequena chama em mim. Passei a visitá-la sempre, levei presentes. Sua companhia me alegrava, sua alma era grande o bastante para iluminar meu coração. “(...) tinha a alma poética; falava da natureza com entusiasmo ingênuo que dá a vida contemplativa à aqueles que não conhecem os segredos da ciência”. Meu sentimento por Lúcia já era notório, porém a impossibilidade desse relacionamento tomava força. Sucumbi às pressões da sociedade, comecei a desconfiar da mulher que tanto gostava, pensando até em vingança. Vingança irracional, sendo eu a causa de tudo. Lúcia abdicara de sua ostentação e luxo para me proteger e eu apenas a magoava, sendo sempre eu aquele que perdoava, enquanto na realidade o que deveria pedir perdão. Até ciúmes busquei fazer. Nossas relações já não eram as mesmas... 

Impressões Primeiras

Conheci essa mulher logo que pisei em terras cariocas. Foi na festa da Glória. Bela era moça, atraente e convidativa ao olhar de qualquer rapaz que se prese. Seu nome era Lúcia. Dr. Sá, amigo de longa data, logo me contara sobre a vida de “moça fácil” que a mesma levava. A princípio “(...) sofri uma atração irresistível do gozo fruído, que provocava o desejo até a consumação; e conheci que essa mulher ia se tornar uma necessidade, embora momentânea, da minha vida.” Lúcia vivia uma vida luxuosa, andava sempre com belas vestes, vida essa bancada pelos seus ricos clientes. De fato, era uma cortesã, mas não uma como as outras. Suas excentricidades e defeitos davam-lhe um aspecto original que aguçava ainda mais meus instintos. Possuí essa mulher aos extremos, percebendo sua total transfiguração. Fiquei alucinado. A doce e singela Lúcia se tornava feroz e ardente...